A Mímica e a Pantomima

 

Ainda hoje, quando pensamos na arte da Mímica, imaginamos o personagem mudo, de rosto pintado de branco, com luvas brancas, fazendo gestos ilustrativos criando objetos imaginários no espaço. Mas isso é mesmo Mímica? E o que é Pantomima? O mímico fala?

Não só no Brasil, como também em várias partes do mundo, surgem muitas confusões ao se tentar responder essas perguntas.

Embora o foco deste trabalho esteja no movimento da Mímica do século XX e XXI e mais especificamente, no Teatro Físico, nome dado à Mímica Contemporânea, é necessário, logo de início, fazer uma diferenciação entre a Mímica e a Pantomima. Freqüentemente são confundidas como sinônimas, mas apresentam diferenças importantes entre elas.

A partir do século XX, Mímica passa a designar a forma de Arte e a Pantomima como um dos seus gêneros. A Pantomima, hoje, é entendida principalmente pela herança de Jean-Gaspard Debureau e Marcel Marceau, caracterizada pela figura de rosto pintado de branco e luvas, contador de histórias sem falas e que se comunica por meio de gestos ilustrativos desenhados no espaço. Tem, geralmente, fins cômicos.

No entanto, a Mímica possui uma atuação mais abrangente. Nela, o mímico utiliza o potencial de seu corpo como um todo, isto é, corpo, voz e pensamento integrados em sua expressão. Nessas encenações, podemos encontrar o drama, a tragédia e, também, a comicidade. A movimentação e a expressão não são centradas somente na mímica objetiva[1], isto é, na criação de objetos espaciais como a parede, a corda e outros, mas também faz uso, principalmente, da mímica subjetiva[2].

No final dos anos setenta, a Mímica Contemporânea passa a ser chamada pela mídia inglesa e pelos próprios praticantes dessa arte de Teatro Físico, numa tentativa de se desvincular da imagem de Arte muda ou da Pantomima(…)

Apesar dos primeiros registros da Mímica datarem da história grega, nos estudos antropológicos ela é encontrada na própria origem do homem e, frequentemente, aparece associada à organização do pensamento, como propõe este livro. Richard Courtney, em seu livro Jogo, Teatro e Pensamento (2001), coloca-a na origem dos ritos do homem primitivo, na figura do caçador que personificava a si próprio ou aos animais em situação de caça, na ação dramática chamada mimese. Os ritos eram uma mistura de personificação com movimentos dramáticos e danças, com amplos movimentos do corpo, pulos e saltos, e com a utilização, como adorno, de peles de animais e folhagens, para identificar-se com o espírito.

Diferentemente de vários outros livros e estudos sobre a história do teatro, que são guiados pela valorização da dramaturgia escrita e esquecidos de seu maior protagonista, o ator, no livro História do Teatro Mundial, de Margot Berthold (2001), essa limitação não acontece. Nele, a autora aponta as contribuições dos atores na Mímica, na Pantomima e na Commédia Dell‘Arte. Afirma a importância dessas manifestações artísticas que não dependem da literatura. Em todo o percurso histórico do teatro mundial, Berthold escreve que podemos aprender sobre o teatro primitivo, pesquisando três fontes: as tribos aborígines, que têm pouco contato com o resto do mundo e cujo estilo de vida e pantomimas mágicas devem ser próximos daquilo que nós presumimos ser o estágio primordial da humanidade; as pinturas de cavernas pré-históricas e entalhes em rochas e ossos; e a inesgotável riqueza das danças mímicas e de costumes populares que sobreviveram pelo mundo afora(…)

 

Em 1890, foi encontrado um papiro, contendo treze peças de mímica de Herodas, autor grego que viveu em Alexandria, por volta de 270 a.C. Eram breves textos mímicos, chamados mimiambos, cujos enredos libertinos e com muito humor, tratavam de revelações secretas, de garotas apaixonadas e de situações cômicas e proibidas. Esses textos comprovam que, mesmo no mundo antigo, os atores chamados mímicos já falavam e, também, representavam, fazendo uso das palavras.

(…)O primeiro a escrever composições literárias para o mímico no século V a.C., parece ter sido Sófron. Em 430 a.C., ele escrevia sobre o dia a dia da vida grega. Ao comentar sobre Sófron, Berthold escreve:

Suas personagens eram pessoas comuns e, no sentido mais amplo da mimese, animais antropomórficos. Sófron criou o ancestral do Bottom, de Shakespeare, no Sonho de Uma Noite de Verão. Numa das peças de Sófron (da qual existem só fragmentos), um ator, que está interpretando o papel de um burro, fala sobre o seu modo de “mastigar cardos”. (BERTHOLD, 2001:136) 

Outro grego de grande importância no séc. III a.C. foi Livius Andronicus. Nascido na Grécia e levado como escravo para uma casa romana de um tal Livius, trabalhou como professor graças ao seu dom da linguagem. Ao receber a alforria, recebeu o nome de seu antigo dono, como era costume naquele tempo. Considerado um ator de muito sucesso em sua época, após lhe faltar a voz no início de uma apresentação, em 240 a.C., contratou um ator para que recitasse por ele enquanto desenvolvia a parte gestual.

Para exercer a profissão de mimo eram necessários dons naturais como, flexibilidade corporal, um rosto expressivo e com grande mobilidade, uma imaginação viva e original, que, no entanto não eram suficientes. Eram também fundamentais as lições com um mestre capaz de desenvolvê-los, de disciplinar os frutos da sua própria experiência e as adquiridas com a tradição. (COUTINHO, 1993:8). Havia na Roma imperial escolas de mimos, como existem hoje em dia. (LECOQ, 1987, apud COUTINHO, idem)

O mímico dava ampla oportunidade para as mulheres exibirem os seus talentos cênicos, o que não acontecia no palco clássico da Antiguidade, onde elas eram excluídas. Pode-se afirmar que a Mímica foi, desde o princípio, o único gênero teatral em que a participação feminina não era um tabu. A maioria dos textos dos mímicos era em prosa, com exceção dos mimedoi, que eram cantados. Já os mímicos romanos misturavam gesto, palavra e música. Na mesma época em que Aristóteles descreveu a tragédia grega, Roma assistia aos seus primeiros e modestos espetáculos dessa Arte de uma trupe Etrusca. Eram danças e canções acompanhadas de flautas e referiam-se aos deuses, às religiões e aos poderes da vida e da morte, já que se estava no ano de 364 a.C. e a peste se alastrava pelo país.

O livro Recherches historiques et critiques sur les mimes et sur les pantomimes, publicado em Paris, em 1751, já indica, pelo próprio título, uma diversificação entre os dois termos. O autor, Jacques Méricot, escreveu que a diferença básica entre as duas palavras, tão freqüentemente usadas sem distinção, era que, na Mímica, as encenações aconteciam acompanhadas de palavras. Geralmente, um ator recitava o texto enquanto outro fazia os gestos. Já a Pantomima era inteiramente silenciosa[3].

Na Idade Média, a Pantomima se fortaleceu com os ritos carnavalescos que propiciavam uma atmosfera favorável às danças e às mímicas macabras, inspiradas nas alegorias sobre a vida e a morte, encontradas nas gravuras e afrescos da época. Eram atuações em procissões, geralmente mudas, que, apesar da Igreja considerar que despertavam sentimentos proibidos, acabaram sendo admitidas nas festas religiosas[4].

Numa reação contrária à comédia dos senhores literatos do Renascimento, surge, na metade do século XVI, um novo fenômeno: a Commedia Dell’Arte. Os cômicos italianos transmitiam de pai para filho a arte de fazer teatro. Eles se especializavam por meio de uma técnica de mímica, de voz, acrobática e cultural. Na Commedia Dell’Arte, a Pantomima, inspirada nos jograis medievais, herdeiros das tradições dos mímicos romanos, retoma sua força e espalha-se por toda a Europa, nas praças, feiras e teatros, numa popularidade massiva.

As brincadeiras pantomímicas, que os improvisadores fizeram por séculos, entram na Commedia Dell’Arte como lazzi, ou seja, repertório de tramas, com a diferença de que os comediantes italianos incluíam falas, diferente do silêncio da Pantomima.

As representações não tinham seu núcleo no texto literário ou na poesia, mas na improvisação, na plasticidade e na mímica. Os atores da Commedia Dell’Arte improvisavam não a partir do nada, mas por ações e gestos corporais definidos no repertório de seu personagem e, também, seguindo um roteiro geral de ações chamado cannovaccio. Embora, durante toda a história, encontremos falas na Mímica e silêncio vocal na Pantomima, é no final do século XVII que a diferença entre as duas será atenuada[5].

Em 1750, o Boulevard du Temple, onde aconteciam os “fringes”[6] de Paris, tornou-se local oficial do teatro de rua, das feiras e praças. Tudo que era censurado de alguma maneira podia ser encontrado ali. O primeiro teatro licenciado apresentava somente equilibrismo em corda bamba. Os outros subseqüentes, também recebiam fortes restrições, mas a área logo adquiriu uma atmosfera carnavalesca. Números com animais, marionetes, malabaristas, acrobatas e arlequinagens povoavam toda a rua.

O clima deveria ser como o retratado no filme: Les Enfantes du Paradis. Talvez, uma das restrições mais absurdas impostas aos atores, era a de que eles atuassem atrás de uma tela de tule. (LEABHART, 1989:5)

A novidade francesa chegou à Inglaterra, trazida pelo ator John Rich, que era mais habilidoso nos gestos do que nas falas. Com ele, a Pantomima se popularizou na Inglaterra e as inovações lá desenvolvidas voltaram para a França. Em pouco tempo, grupos de pantomimos apresentavam-se pela Holanda, Alemanha, Áustria e Dinamarca.

Apesar das sanções na França continuarem até 1791, determinando repertório, tamanho do elenco, número de músicos, censura nas letras das músicas e nos diálogos nas produções artísticas, o teatro popular se desenvolveu e trinta e cinco novos teatros surgiram no Boulevard du Temple[7].

Essa liberdade, porém, tinha seus dias contados. Em 1807, Napoleão impôs novas restrições, controlando, novamente, o número de teatros, o repertório, o gênero[8]. Foi nessa atmosfera que se iniciou a carreira meteórica de Jean-Gaspard Debureau em 1819, no Thèatre dês Funambules, localizado no Boulevard du Temple.

Fig. 1 e 2 – 1. Debureau como Pierrot por Maurice Sand / 2. Pierrot com grandes mangas por Maurice Sand.

Considerado uma lenda no século XIX, seu sucesso invadiu o século XX. Sua figura de Pierrot, com o rosto pintado de branco e seus movimentos estilizados, deram forma à “pantomima branca”. O povo lotava o teatro para poder assistir às histórias contadas por meio do corpo, sem falas. Os gestos ilustravam o imaginário, e ilusões eram desenhadas no espaço, como pode ser conferido nas pantomimas recriadas para o filme Les Enfantes du Paradis, interpretado por Jean Louis Barrault e que tanto influenciou o trabalho de outra lenda do século XX, o francês Marcel Marceau.

Fig. 3 – Pintura de Jean-Gaspard Debureau, por Michael Tomek. (Mime Journal)

Fig. 4 – Marcel Marceau em cena.(Mime Journal) (Gapilan)

Mas é no século XX que a Mímica irá se desenvolver plenamente como forma de arte. Isso se deve ao trabalho de um outro francês, Etienne Decroux, que será discutido posteriormente.

É de importância fundamental destacar que essa forma de arte que passa a explorar as metáforas da linguagem corporal, com ou sem falas, no drama, na tragédia ou na comédia, denomina-se Mímica. A Pantomima passa a ser inserida em um dos seus gêneros e caracterizada pela figura do seu performer (rosto pintado de branco, com luvas, que conta uma história fazendo uso dos gestos ilustrativos desenhados no espaço). Tem, geralmente, fins cômicos e não possui falas.

Quando o mímico cria uma ilusão da corda ou da parede, o gesto traz uma significação metafórica, isto é, não traduz o objeto em si, como acontece na Pantomima, mas abre-se para outras interpretações, podendo simbolizar a batalha de uma vida ou a prisão de seus pensamentos, por exemplo. Pode-se encontrar texto falado, canções, sons inarticulados ou simplesmente a ação sem falas.

A Arte da mímica se mostrou uma arte de resistência em toda a nossa história, sofrendo preconceitos, discriminações e sanções em diferentes épocas por diversos reinados e governos. Quando o teatro era oprimido pelo Estado ou pela Igreja ou pela tirania do texto, como dizia Artaud, foram os mímicos que surgiram nos becos, nas praças, nas feiras e invadiram os teatros, mantendo sempre viva a “arte de ator”[9]. (DECROUX, 1995:26)

A mímica moderna exerceu papel fundamental na arte de ator, no sentido de resgatar a independência dele dentro de sua casa, o teatro. O ator, no final do século XIX e início do XX, encontrava-se dominado pelos modismos do teatro comercial e da sua sujeição à literatura, que o limitava a interpretar um texto escrito, obedecer à expressão ditada pelo discurso e deixar, para segundo plano, tudo o que não estava contido nas palavras. Isso foi determinante para o surgimento do ator-criador do Teatro Físico, que rompeu esse sistema, participando de todos os aspectos da criação cênica, desde a dramaturgia até a atuação.

 

No início do século XX, surge um movimento teatral em Paris, liderado por Jacques Copeau, que reverbera, fortemente, em vários grupos de artistas e torna-se fundamental para a formação da Mímica Moderna e, mais tarde, do Teatro Físico. Radicaliza todas essas questões que deixam de ser do âmbito da biologia ou da cultura, afirmando uma aliança indissociável entre essas duas esferas.

[1] Nome dado à área da mímica que cria e explora as ilusões de objetos no espaço. O gestual da mímica objetiva é o mais fiel possível às ilusões criadas, isto é, nela, a parede será uma parede e a corda uma corda evitando as metáforas na movimentação.

[2] Área da mímica que explora as emoções e a sensibilidade. O gestual é centrado nas metáforas, isto é, quando se cria uma ilusão como a parede, ela não representa esse objeto em si e sim um sentimento ou sensação a respeito. Nesse caso, a parede criada pode representar a prisão dos pensamentos ou de qualquer outro estado interior.

[3]A Pantomima romana se diferenciava da Mímica em duas maneiras: seus temas eram mais leves e usavam máscaras em suas apresentações, identificando assim os personagens, mas impedindo que falassem. Por isso, sua expressão era composta de uma série de posturas e gestos e a movimentação era centrada nas mãos. Na Idade Média, um grande número de atores deixou Roma por Constantinopla, onde se renovou o sucesso da Pantomima. Na Europa, a Pantomima é encontrada com grande popularidade nas feiras e a temática deixa de ser mitológica, como acontecia na antiguidade e torna-se um vaudeville com três personagens: o marido, a mulher e o amante. No século VIII, Carlos Magno condenou os mimos, por indigna obscenidade, tirando-lhes alguns direitos civis. (COUTINHO, 1993:13)

[4]Segundo o Papa Alexandre, a mímica jogral, isto é, que analisa as façanhas dos reis e a vida dos santos e consolavam as gentes das suas amarguras e desgostos podiam ser toleradas. Foi nessa época que foram desenvolvidas características originalíssimas, das quais nascerá a base do fazer teatral moderno, a Commedia Dell’Arte. (idem, p.15)

Na época do Renascimento, a Pantomima retorna com uma grande força nas cortes européias. As representações eram feitas de pantomima, dança e canto, que logo se dividiram em apresentações de pantomima pura, Balleto (pantomima dançada) e melodrama. (idem, p.17)

[5] Em 1697, o rei Luis XIV expulsou os comediantes italianos de Paris por terem zombado de sua amante, Madame de Maintenon. A rivalidade entre os comediantes italianos, a Comédie Française e a ópera (os dois últimos considerados o teatro dos reis) cresceu de tal maneira que os comediantes italianos foram exilados para o outro lado do Rio Sena e receberam a permissão de atuarem somente sob as condições dos atores não falarem. Então, a pantomima silenciosa, tão popular na França e no resto da Europa, nasceu na forma que a conhecemos e destacou-se na figura de Jean-Gaspard Debureau, representado por Jean Louis Barrault no clássico do cinema francês, Lês Enfantes du Paradis, traduzido para o português como Boulevard do Crime. Em 1716, a proibição foi retirada e os comediantes puderam voltar para Paris, embora ainda houvesse um forte controle de gênero e repertório nos teatros.

[6] Esse termo ficou conhecido na Europa para designar o circuito teatral não comercial.

[7] Em janeiro de 1791, quando a Assembléia Nacional passou a permitir que qualquer cidadão pudesse estabelecer um teatro público e apresentar peças de qualquer tipo, o número de casa de espetáculo cresceu para mais de cem.

[8] É muito provável que, devido às condições criadas na França, com as proibições impostas no reinado de Luis XIV, Luis XV, Luis XVI e repetida por Napoleão, a França tenha servido de base para o desenvolvimento da Mímica e do gênero da Pantomima. Essa arte era uma maneira de muitos artistas burlarem a opressão e expressarem-se.

[9] A partir dos estudos de Decroux, fica estabelecida uma distinção entre o que seria a arte do ator e a arte de ator. Esta diferenciação será explicitada no decorrer deste trabalho.

Trecho extraído do livro: “A Mímica Total” de Luis Louis

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